5. GERAL 10.4.13

1. GENTE
2. ESPECIAL  A REVELAO PBLICA DE DANIELA
3. ESPECIAL  E PENSAR QUE J FOI ASSIM...
4. ESPECIAL  CONTRA A ENGENHARIA SOCIAL
5. CRIME  AQUI NO TEM DEUS
6. AVIAO  GORDO PAGA MAIS
7. URBANISMO  PACTO PARA RESSUSCITAR UMA CIDADE
8. SADE  NO AJUDA EM NADA
9. RELIGIO  CONVERSA NA CATEDRAL
10. MEDICINA  DUAS MES E UM PAI
11. CELEBRIDADES  POSTOU, FATUROU
12. ORIENTE MDIO  A VOCAO DO LBANO  A PLURALIDADE
13. MEMRIA  O CRTICO 5 ESTRELAS

1. GENTE
JULIANA TAVARES. Com Mariana Amaro e Marlia Leoni

VINDE A MIM
DAVID BANDA (acima, de azul) e MERCY JAMES (atras dele), os filhos que MADONNA adotou no Malaui, j esto uns mocinhos, mas a cantora no se esqueceu da promessa de ajudar as outras crianas daquele pas africano, nem mesmo depois de tomar uma senhora tungada de uma ONG  qual doou 4 milhes de dlares e que havia se comprometido a construir uma escola para 500 meninas  nem um nico tijolo subiu e o dinheiro virou fumaa. Madonna, que no  mulher de ser passada para trs, ergueu o queixinho retocado e foi em frente. Encontrou outra turma e, desde 2011, fundou dez escolas, que atendem meninos e meninas. Em visita a uma delas, posou em meio s criancinhas, celestial e toda de branco.

FRSIO IS BEAUTIFUL
Nesses tempos em que ter uma causa , para os famosos, to essencial quanto ter um passaporte, a modelo holandesa DOUTZEN KROES, 28, soube ser original. Ela est empenhada em ajudar a acabar com o preconceito contra o frsio, um dialeto falado s em Friesland, provncia onde nasceu. "Quem  educado em frsio fala com bastante sotaque o holands. Os jovens da minha cidade, quando vo para Amsterd. viram alvo de chacota", diz. Uma das estrelas da Victoria's Secret, grife em que o prestgio  inversamente proporcional  taxa de gordura, ela gravou at um vdeo para dar uma fora  campanha que incentiva os jovens a falar a lngua. A saber: o frsio se parece com o ingls, s que falado com um ovo na boca. Boy  boi e twelve  tolve, por exemplo. O filho de 2 anos de Doutzen, Phyllon Joy, j est craque no negcio.

 DE BRINCADEIRA, PRINCESA
O beb  esperado para julho, mas, at agora, nada de barrigona. A "inha" est escondida embaixo do invernal Armani com que KATE MIDDLETON desfilou seu sorriso em um parque da Esccia. L, uma menininha lhe mostrou o brinquedo que carregava: uma boneca feita  imagem e semelhana da princesa. Imagem e semelhana? "Ah, no! Jura que o meu cabelo  assim?", surpreendeu-se a homenageada. A real cabeleira,  qual Kate devota especiais cuidados, tem tudo para ser herdada pela filha ou filho: pelas contas dos "especialistas" em Kate, o beb tem apenas 12,5% de chance de ter cabelo loiro ou ruivo, j que, diante do gene dominante do cabelo da me, o do alvo prncipe William leva a pior.

AI, QUE NORA
 verdade que no ltimo ano o empresrio Eike Batista perdeu quase 20 bilhes de dlares e passou do stimo para o centsimo lugar no ranking dos mais ricos do mundo. Mas nem tudo foi perda. H quatro meses, ele ganhou uma nora. Namorada do seu caula, Olin, 17 anos, BABI ROSSI, 23,  ajudante de palco em um programa de TV e volta e meia dispe do jato do sogro para viajar de So Paulo, onde mora, para o Rio, onde o namorado fica, ou para Angra, onde ele tem casa. "Mas eu no gosto de falar das coisas dele, porque parece que sou interesseira", diz Babi. "Prefiro falar da minha carreira." A ela, ento: "Fiz curso de ingls e de talk-show. Quero ser apresentadora". Pessoalmente, Babi ainda no foi apresentada aos sogros. Instada a dizer o que acha da nova nora, Luma de Oliveira preferiu no comentar.


2. ESPECIAL  A REVELAO PBLICA DE DANIELA
Ao anunciar a unio com uma jornalista de televiso, a quem chama de esposa, a cantora baiana Daniela Mercury tornou obrigatria a discusso sobre o casamento gay no Brasil.
GABRIELA CARELLI

Seja o que Deus quiser, Malu." Daniela Mercury olhou para a companheira, em um quarto de hotel de Lisboa, onde esteve na semana passada para uma srie de shows, tocou no cone compartilhar do Instagram e ps no ar uma colagem de fotos dela com a jornalista Malu Verosa, editora na TV Bahia, afiliada da Globo. No cabealho, escreveu a frase que provocaria mais de 17.000 reaes de "curtir" coladas  revelao: "Malu agora  minha esposa, minha famlia, minha inspirao pra cantar". E o Brasil inteiro ficou sabendo que ela sara do armrio, como se diz no jargo popular para definir a pessoa que assume sua homossexualidade, e que decidira trocar alianas  mas ainda no assinar papis no cartrio  com a namorada recente, de apenas dois meses e meio (na cronometragem oficial, descontado o perodo de segredo). Houve estardalhao  saiu no Jornal Nacional. Daniela  me de dois filhos j adultos, do primeiro casamento, e de outros trs adotados, do segundo, ambos relaes convencionais  nunca admitira sua orientao sexual. Seja o que Deus quiser, portanto.
     Mas Deus vai querer? Se depender da hierarquia das igrejas que falam em nome Dele, a resposta ser um sonoro "no" dos lderes evanglicos brasileiros, um "sim" enftico dos anglicanos e um "sim" condicional dos catlicos. "Se Deus, na criao, correu o risco de nos fazer livres, quem sou eu para me meter?", foi a reao do jesuta Mrio Bergoglio, o papa Francisco, sobre o casamento gay em seu dilogo com o rabino Abraham Skorka (veja a reportagem na pg. 94). Bergoglio elabora sua resposta e diz que o papel do pastor  alertar o fiel para os perigos de pecar e nunca induzi-lo a determinado tipo de ao na vida privada. Mas, pelo menos at que Ele a convoque para um acerto de contas, Daniela tem pouco com que se preocupar com as repercusses religiosas de seu anncio. O casamento gay tem hoje mais implicaes de ordem prtica do que de conscincia. 
     Depois do anncio, Daniela divulgou uma nota na qual citou o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comisso de Direitos Humanos da Cmara. Escreveu a cantora: "Numa poca em que temos um Feliciano desrespeitando os direitos humanos, grito meu amor aos sete ventos. Quem sabe haja alguma lucidez no Congresso Brasileiro". Ao misturar seu relacionamento com poltica, Daniela prestou um desservio ao mesmo tempo ao romantismo e  sua seriedade de propsitos. O presidente do STF, Joaquim Barbosa, ajudou a pr a questo em sua real perspectiva durante uma palestra na UNB: " simples: o deputado Marco Feliciano foi eleito pelos seus pares para assumir determinado cargo dentro do Congresso Nacional. Perfeito. Agora, a sociedade tem direito de se exprimir contrariamente  presena dele nesse cargo. Isso  democracia". 
 natural e positivo que as instituies tratem as mudanas comportamentais radicais com a cautela devida.  natural e positivo tambm que as pessoas possam ter tempo para se acostumar com esses novos ordenamentos sociais e avanos comportamentais.  assim que as mudanas se legitimam, superando a intolerncia, que se dilui com o tempo em formas cada vez mais brandas de rejeio at se tornarem invisveis. Confrontada com a questo do casamento gay, a Suprema Corte dos EUA optou pela cautela. Pediu mais tempo para que os juzes avaliem todas as repercusses de um cada vez mais provvel reconhecimento legal de uma situao de fato. 
     No Brasil, o STF reconheceu a unio estvel gay em 2011. A partir de ento, parceiros do mesmo sexo numa relao contnua e duradoura, com o objetivo principal de constituir famlia, podem receber herana em caso de morte de um dos dois, receber penso alimentcia, optar pela comunho parcial de bens, e tambm adotar crianas. Em seis estados brasileiros (Alagoas, Bahia, Cear, Mato Grosso do Sul, Paran e So Paulo) os cartrios j fazem o casamento civil homossexual, o que pe os casais juridicamente um degrau acima do status de unio estvel. Cerca de 400 casais gays brasileiros conseguiram a certido de matrimnio desde o "sim do STF. Esse nmero s tende a crescer. 
 discernvel uma tendncia evolutiva rumo  aceitao no que diz respeito aos homossexuais. O que j foi visto como doena fsica no passado foi em uma fase posterior encarado como comportamento desviante provocado por defeito de criao  ou seja, produto de lares com mes superprotetoras e pais ausentes e violentos. As concepes erradas davam origem s reaes sociais desastradas. A "rebelio de Stonewall", os seis dias de confronto entre policiais e gays, em Nova York, ocorreu h pouco mais de quarenta anos. Desde ento os gays deixaram de ser caso de polcia. Os estudiosos desvendaram o peso da determinao gentica, o que esvaziou as falsas consideraes morais sobre eles. Recentemente a homossexualidade tem sido descrita como uma adaptao evolutiva da espcie. Isso significa que muitas sociedades no apenas deixaram de ser hostis aos gays como passaram a ver contribuies positivas para o grupo na existncia deles. 
     "A homossexualidade representa diversidade e ela  sempre positiva para a sociedade", diz Edward Wilson, o grande bilogo americano de Harvard, autor de um livro recente, A Conquista Social da Terra, que funde de maneira indita as anlises genticas e culturais do comportamento humano (veja a Carta ao Leitor, na pgina 12). Wilson pe a homossexualidade em campo diametralmente oposto, por exemplo, ao do incesto, este, sim, um desvio comportamental que no apenas abala o edifcio moral das sociedades como empobrece a diversidade gentica to necessria para a sobrevivncia sadia da espcie humana. Wilson diz que isso explicaria as razes da crescente aceitao da homossexualidade em contraste com a existncia consentida do incesto somente em alguns pontos isolados da frica e da sia  ainda assim com aceitao apenas ritualstica em casamentos de chefes tribais. O mesmo processo sociogentico-cultural que, como demonstra Edward Wilson, vem chancelando a homossexualidade atua fortemente na rejeio da pedofilia e da poligamia. O que a biologia evolutiva constatou pelo mtodo cientfico as pessoas percebem no cotidiano. Quanto mais jovem o grupo, menos seus integrantes consideram homossexualidade um assunto polmico. Os jovens em quase todas as partes so cada vez mais o que os socilogos chamam de "gender blind"  ou seja, eles olham uma pessoa, percebem que  tipo de roupa ela usa, que corte de cabelo, mas se a pessoa  gay ou no  um ponto que no chama ateno. 
     O casamento gay coloca um desafio de outra ordem. No se trata mais da simples aceitao pelo grupo de adolescentes ou jovens adultos  mas do reconhecimento pelas instituies de que os direitos civis podem ser automaticamente aplicados aos relacionamentos homossexuais duradouros. Isso  mais complexo. Esse processo exige que vanguardas e maiorias conservadoras realizem uma tensa dana do acasalamento at que a intolerncia se dissolva em rejeio e essa em aceitao legal  o que no significa que os dois lados vo despertar um dia depois da aprovao da eventual legalizao do casamento gay concordando sobre todas as questes. Mas esse processo de negociao  inevitvel. 
 da natureza humana que as minorias liderem as transformaes, na vanguarda, e que as maiorias, sempre mais apegadas ao que j existe, se incomodem. Impossvel  fugir da existncia de uma novidade que exclui a indiferena. Foi assim com o divrcio e com o movimento em defesa do voto feminino, no incio do sculo XX, nos EUA e na Inglaterra. As mulheres j tratavam de poltica dentro de casa, opinavam sobre o cotidiano com o marido  mas o salto s se deu com a aprovao legal do voto.  o que ocorre agora com o ingresso do casamento gay nos tribunais. 
     Se a aprovao da unio homossexual fosse simplesmente a institucionalizao de uma postura que j estava acontecendo entre quatro paredes, seria mais fcil crer que essa transformao se daria de modo ainda mais acelerado. Mas h um complicador. Como estender aos gays as protees legais dadas ao casamento pelo simples fato de ele, ao fim e ao cabo, propiciar a perpetuao da espcie pela procriao? As pesquisas de opinio no Brasil mostram que nem mesmo a adoo de crianas ou o recurso a barrigas de aluguel ou inseminao artificial demovem a maioria heterossexual da convico de que os casais gays so incapazes de criar um lar estvel. Nos EUA a resistncia  bem menor, mas a questo ainda est longe de ser unanimidade. "Parece-me que os gays esto lutando pelo casamento. Eu receio que isso signifique rebaixar o que  o casamento", disse o ator ingls Jeremy Irons ao site noticioso Huffington Post. 
     Alm da intolerncia e agressividade dos militantes, h descontentamento de bom nmero de pessoas com a reduo de questes ticas de alta complexidade  caso tambm do aborto e da eutansia  a uma simples luta por direitos. Escreveram os especialistas em tica Claire Andr e Manuel Velasquez: "Muitas controvrsias morais hoje se expressam na linguagem dos direitos. H uma exploso de recursos pelos direitos dos homossexuais, direitos dos prisioneiros, direitos dos animais, direitos dos no fumantes e dos fumantes, direitos dos fetos e direitos dos trabalhadores". O reconhecimento do direito dos homossexuais perante as leis , portanto, apenas um aspecto de uma questo social de consequncias ainda no totalmente conhecidas. Mas apenas fingir que o novo no existe  insuficiente para preservar o velho. 

"ESTOU FELIZ, ESTOU AMANDO"
De Portugal, onde est fazendo shows, a cantora Daniela Mercury falou a VEJA

Por que a senhora resolveu tornar pblica essa relao? 
Porque quis ter minha dignidade preservada. Como todo mundo, quero ser aceita, ter liberdade, ser respeitada. No suportaria ficar escondida. E o nico jeito de no ficar escondida, com medo das fofocas, foi tratar isso como uma coisa natural  que, de fato, .

A senhora disse que o fato de o deputado Marco Feliciano ter assumido a presidncia da Comisso de Direitos Humanos influenciou a deciso de falar sobre a sua unio. Em que medida?
Claro que esse contexto poltico, a inadequao desse deputado ao posto, tudo isso me deu fora. Mas eu acho que, quanto mais se falar das relaes homossexuais, mais elas vo se tornar naturais para as outras pessoas. Antigamente, as mulheres sentiam vergonha de ser desquitadas. Isso passou. E passou porque a situao se tornou natural. Eu quero ajudar a fazer com que o amor entre duas pessoas  no caso, duas mulheres  tambm seja encarado por todo mundo como algo normal.

Como seus pais e filhos reagiram  situao?
Falei com um por um. Para o meu pai, eu telefonei, e disse que tinha me apaixonado por Malu. Ele me perguntou: "Minha filha, no  um pouco cedo para voc viver essa relao?". Eu disse que no, e que queria levar Malu para ele conhecer. Claro que no foi fcil. No fim da ligao, ele disse que no conseguia entender direito, mas que me amava. Minha filha de 15 anos perguntou se eu estava feliz e eu disse que sim. Depois que eu e Malu colocamos as fotos na internet, ela me mandou uma mensagem: "Vocs esto fazendo a maior confuso". E, logo depois, mandou outra: "Vocs esto lindas nas fotos".

Foi sua primeira relao homossexual?
Eu j tinha vivido outras. A primeira vez que me apaixonei por uma mulher foi em 1991. Depois, namorei outras. A relao mais sria foi com uma mulher com quem fiquei antes de me casar com o Marco (seu marido durante trs anos). Com ela, no assumi publicamente a relao. E foi muito ruim. Vivia com medo do que a imprensa e os paparazzi pudessem fazer conosco. Veja, eu nunca neguei que tivesse estado com mulheres. Quem estava  minha volta, meus filhos, meus amigos, sabia. S nunca tornei a coisa pblica. Mesmo sobre os homens com quem me relacionei, s falei publicamente depois que a relao ficou slida  caso dos meus dois casamentos com homens.

A senhora diria que  bissexual? 
Eu me apaixono por pessoas. No separo por gnero. Se houvesse uns ETs charmosos por a, eu ia querer conhecer tambm. Sou curiosa, sou aberta. Amor no escolhe o sexo. Acho que as pessoas se apaixonam, se amam e pronto.

Vocs se casaram no civil? 
No. Nosso casamento foi assim: dias atrs, passamos por Paris e, naquela cidade romntica, compramos as alianas e trocamos os anis. Imagine: fizemos isso em meio quela enorme passeata que houve l, de pessoas que so contra o casamento gay! Colocamos as alianas e fomos  Sacr-Coeur, j que somos as duas catlicas. Fomos fazer nossas oraes e pedir proteo. Logo em seguida, ligamos para a nossa famlia para contar a novidade. No oficializamos a relao porque, por enquanto, no vimos necessidade. Mas, se as coisas prticas da vida pedirem, resoluo sobre herana, por exemplo, da podemos casar. Eu acho importantssimo ter um instrumento legal que respeite e d permisso ao casamento gay. Todo mundo fica mais protegido assim.

A senhora acha que outros artistas gays devem falar abertamente da sua condio? 
Acho que isso  importante, mas no obrigatrio. Muitas pessoas certamente se sentiriam apoiadas se vissem artistas falando disso. Mas, assim como ningum tem de se posicionar politicamente, tambm no tem de se posicionar sobre a sua sexualidade.

O que a encanta na Malu? 
O carter firme e tico dela. A personalidade forte. A segurana dela. 

Sua coragem de expor publicamente essa relao rendeu muitos elogios. Mas o que a senhora diria a pessoas, ou fs, que eventualmente tenham ficado desapontadas com a revelao?
Sinto muito. Espero que, a cada minuto, isso fique mais fcil para vocs. Eu no quero chocar, no quero agredir. Estou feliz, estou amando e no abro mo dessa condio. Minha mensagem  de amor.
JULIANA LINHARES

NA PROTEO DA ZONA SUL
Juntos desde 2005, o gerente de RH Alexandre Hockensmith e o gerente de loja Diogo Bastos fazem questo de no frequentar ambientes exclusivamente gays. Contam que, no seu crculo de amizade, predominam casais heterossexuais, "Chega de gueto", diz Bastos. Eles afirmam que nunca foram alvo de manifestaes homofbicas exacerbadas, mas acham que isso tem relao com o fato de morarem num bairro de classe mdia alta do Rio, o Leblon. "Eu cheguei a achar que o preconceito tinha acabado", diz Bastos. "At que um funcionrio da loja em que trabalho  morador da Baixada Fluminense, gay, negro e filho de evanglicos  me chamou para conversar e contou que a vida dele  uma luta diria."

NO RELIGIOSO
Depois de nove anos de namoro, os arquitetos Zezinho Santos, 45 anos, e Turbio Santos, 44, ficaram famosos no Recife por fazerem uma festa de casamento de arromba em 2009, com 800 convidados, cerimnia religiosa e show de Rita Lee. "Quisemos casar no religioso porque era o modelo que conhecamos. Como nossos irmos se casaram assim, tambm queramos passar por essa experincia", conta Turbio. Ambos so de famlias tradicionais de Pernambuco  Zezinho  neto do fundador da Cimento Nassau, e Turbio, filho de um empresrio da agroindstria. Para Zezinho, a sociedade est mais liberal. "A relao homossexual  mais fcil para a nova gerao."

PAPEL PARA ADOTAR
A professora Eleni Souza, 40 anos, e a secretria escolar Suzy Nobre, 48, vivem juntas h dezesseis anos. Desde o incio, consideram-se casadas, mas o documento que comprova a unio estvel s foi providenciado em 2012. "Tiramos os papis porque precisamos de um respaldo legal para comprar uma casa e adotar uma criana", diz Suzy. "J casar oficialmente nunca foi uma prioridade para ns. No faria nenhuma diferena em nossa vida, tirando o fato de permitir usarmos o sobrenome uma da outra. Mas considero o reconhecimento legal da nossa unio um marco. Significa que temos direitos iguais ao de qualquer casal."


AS PASTORAS
H dezessete anos, Lanna Holder assumiu ser homossexual. A famlia no aceitou e a obrigou a frequentar uma igreja evanglica, na qual ouviu que sua opo era influncia do diabo. Ela cedeu, casou-se, teve um filho e virou pastora, chamada de "a ex-lsbica". Em uma viagem aos Estados Unidos, conheceu Rosania Rocha, que era casada e tinha um filho com um pastor. Logo anunciaram que viveriam juntas. "Foi um escndalo. Fui banida das igrejas e queimaram meus livros", diz Lanna. Em 2011, fundaram a igreja Comunidade Crist Cidade de Refgio, em So Paulo, em que 90% dos fiis so gays. "Seguimos a mesma Bblia, A diferena  que aceitamos os homossexuais", diz Lanna. As duas vo se casar em dezembro.

INTERNET E PONTE AREA
O encontro do economista carioca Guilherme Porto, com o empresrio paulista Roni Silva, aconteceu numa sala de bate-papo na internet. Encararam seis anos de ponte area at morarem juntos. H um ano, vivem em Ipanema. "Quando nos despedamos no aeroporto, soframos em dose dupla: pela separao e por no podermos nos beijar e abraar sem enfrentar olhares de reprovao", diz Silva. Porto acha que os tempos mudaram e hoje se sente mais  vontade para expor a relao. "As redes sociais ajudaram. Fomos perdendo a timidez a cada foto que postvamos juntos, a cada comentrio carinhoso dos amigos." Eles querem se casar no civil, "por uma questo de princpio", e por pensarem no futuro do patrimnio que constrom juntos.

VOTO, SIM
Passeara em Nova York, em 1920, defende o sufrgio feminino.  inacreditvel, no mundo ocidental, imaginar que um dia esse direito tenha sido negado.

DIVORCIO, NO
Em defesa da moral, 20.000 catlicos, na maioria mulheres, fizeram da procisso de Corpus Christi, no Rio, em 1977, um grito contra a deciso do Congresso.

COM REPORTAGEM DE LVARO LEME, BELA MEGALE, CARLOS GIFFONI, CAROLINA MELO E KALLEO COURA


3. ESPECIAL  E PENSAR QUE J FOI ASSIM...
Cada sociedade tem seu prprio tempo para maturar (ou no) mudanas sociais. Nos EUA, ao contrrio do Brasil, a aceitao dos gays vem disparando  mas isso  recente.

 um caso raro, talvez nico: o presidente dos Estados Unidos assina uma lei e, depois de apear do poder, diz que ela  inconstitucional. Em 1996, pouco antes de concorrer  reeleio, Bill Clinton sancionou a lei que define o casamento como unio "entre um homem e uma mulher". Queria o voto dos conservadores e temia desagradar aos liberais, mas assinou  na calada da noite, faltando dez minutos para 1 da madrugada, sem foto nem cerimnia, mas assinou. Ganhou a reeleio, cumpriu seu segundo mandato e, no ms passado, defendeu a ideia de que o documento que leva sua assinatura fere o princpio da igualdade entre os cidados da Constituio. 
     A inflexo de Clinton se explica numa aritmtica elementar. Em 1996, s 27% dos americanos apoiavam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Hoje, so mais da metade. O apoio cresce tanto que a Suprema Corte, numa audincia pblica sobre a constitucionalidade do casamento gay, deu a impresso de que prefere no legislar sobre o assunto, deixando que cada estado decida o que julgar mais apropriado. A deciso final da Corte sai at junho. Pode deixar o assunto para os estados, como transpareceu na audincia, mas pode surpreender, aprovando o casamento gay para o pas todo. Nem os militantes gays ficaram incomodados  com a aparente cautela dos juzes, pois, cada vez que sai um plebiscito sobre o assunto, eles vencem. Em novembro, ganharam em quatro estados: Washington, Maine, Maryland e Minnesota. (Mais a eleio, por Wisconsin, da primeira senadora abertamente gay.) A revista Time colocou na capa um casal homossexual ... beijando-se na boca sob a seguinte chamada: "O casamento gay ganhou. A Suprema Corte ainda no decidiu, mas o pas j". 
     Cada sociedade tem seu ritmo prprio para aceitar (ou no) novos comportamentos sociais. No Brasil dos anos 50, o cardeal de So Paulo, dom Carmelo Motta, achava que a aprovao do divrcio era motivo para pegar em armas, e as desquitadas eram comparadas com "mulheres da vida". At o fim dos anos 60, os gays americanos se reuniam s escondidas em bares que pagavam propina  polcia para evitar batidas. Percorreram uma longa trajetria em busca de aceitao. At 2004, a maioria dos americanos era contra o casamento homossexual. Desde ento, o apoio entrou numa espiral ascendente. Por dois motivos. Os jovens que esto chegando  idade adulta so francamente favorveis aos gays. O outro motivo  que as pessoas mudam de ideia, inclusive as mais velhas. Na "gerao silenciosa", formada pelos nascidos entre 1928 e 1945, apenas 17% apoiavam o casamento gay h dez anos. Hoje, so 31%. Pois , as coisas mudam devagar, mas mudam tanto que fazem at presidente dizer que assinou lei inconstitucional. 
ANDR PETRY, DE NOVA YORK


4. ESPECIAL  CONTRA A ENGENHARIA SOCIAL
Mais da metade dos franceses no v com bons olhos a instituio do casamento gay. Mas o movimento no  reacionrio: conta com homossexuais e tem algo de 1968.

     Em maio de 1968, Paris foi palco de manifestaes estudantis contra a velha ordem. "A imaginao no poder" e "Seja realista, exija o impossvel" eram dois dos slogans que transbordaram para pases do Ocidente e da Amrica Latina, com variaes locais que sopravam na mesma direo de modernizar hbitos  e, no extremo, transformar o sistema. O arco, aqui, ia da ressurreio do anarquismo  improvvel mutao do marxismo em ideologia libertria. Maio de 1968 transformou as relaes familiares e amorosas, mas propiciou o surgimento de grupos terroristas e causou a substituio dos paraleleppedos por asfalto nas ruas parisienses, a fim de evitar que os estudantes os arrancassem para jogar nos policiais. Uma pena do ponto de vista esttico. Quase meio sculo depois, as maiores manifestaes ocorridas em Paris parecem ir na direo contrria em relao a novidades comportamentais. So contra a legalizao do casamento gay nos moldes propostos pelo governo. Uma delas reuniu quase 1 milho de pessoas, em janeiro. A outra, realizada em maro, mobilizou perto de 500.000 cidados e acabou em pancadaria, depois que um grupo tentou sair dos limites geogrficos estabelecidos pelas autoridades. Agora, protestos menores e dirios pressionam o Senado a emendar o projeto de lei aprovado pelos deputados  
     O movimento, contudo, no pode ser definido como reacionrio, embora a Igreja seja forte patrocinadora. No  incorreto dizer que, em diversos aspectos, ele  fruto de 1968. Sua lder, por exemplo,  a comediante Frigide Barjot (trocadilho com o nome da atriz famosa que significa Frgida Doidona)  catlica, mas no uma carola de bigode ligada ao Opus Dei. Esse movimento abriga famlias com recasamentos, aglutina homossexuais avessos ao padro heterossexual e conta com a simpatia de mais da metade da populao, em boa parte desobediente aos ditames do Vaticano. Seus integrantes no so contrrios  unio de gays perante a lei. O que no querem ver aprovada  uma legislao que iguale casais homossexuais a heterossexuais, em especial quanto  reproduo mdica assistida. No acham bom que bebs nasam de dois pais (por meio de barriga de aluguel, obviamente) ou de duas mes, porque essas crianas teriam problemas psicolgicos. A lei abre brecha para os gays "gerarem" filhos. "Ao abolir a distino entre hteros e gays, no que se refere  reproduo, o governo mostra o seu vis autoritrio. O nome disso  engenharia social. Viva a diferena!", diz Frigide Barjot. Parece a fala de uma manifestante de 1968. 
MRIO SABINO, DE PARIS


5. CRIME  AQUI NO TEM DEUS
Acusada de matar pacientes na UTI que comandava, Virgnia de Souza se gabava de seu poder de vida e morte. Documentos obtidos por VEJA detalham as execues.
LESLIE LEITO, DE CURITIBA

     Numa manh, em meados de 2010, Virgnia Soares de Souza, mdica responsvel pela unidade de terapia intensiva para casos de clnica geral do Hospital Evanglico, o segundo maior de Curitiba, avisou seu pessoal que um grave acidente de trnsito acabara de fazer vrias vtimas e que eles se preparassem para receb-las. Uma das enfermeiras presentes alertou para um problema: todos os catorze leitos estavam ocupados. Ouviu como resposta que fosse ao pronto-socorro apressar os procedimentos de internao, porque as vagas seriam criadas. "Desci para o pronto-socorro com a UTI lotada. Quando voltei, em menos de meia hora, seis pacientes tinham morrido. Fiquei apavorada", conta a VEJA a enfermeira, que no quer ser identificada por temer represlias. Ela ainda perguntou ao colega Claudinei Machado Nunes o que havia acontecido. Ele disparou: "Voc  ingnua ou burra?". A moa narrou sua histria de terror  Polcia Civil do Paran  um dos oito depoimentos estarrecedores sobre a repugnante mquina de execues instalada na UTI do Hospital Evanglico aos quais VEJA teve acesso. Um conjunto tambm ainda indito de 21 pronturios  contundente quanto ao modus operandi da doutora Virgnia: todos os pacientes cujos casos esto  sendo investigados receberam um mesmo coquetel de medicamentos, a que a polcia se refere como "kit morte". 
     O Ministrio Pblico j denunciou a mdica e mais sete subordinados dela por sete mortes. Mas a investigao ganhou novo e assombroso vulto: na ltima sexta-feira, foram identificados outros 317 pacientes da UTI que perderam a vida no mesmo dia em que receberam o kit morte, entre 2006 e 2013, segundo VEJA apurou. O bando, que responde por formao de quadrilha e homicdio,  acusado de eliminar sistematicamente doentes com menos chances de melhora e assim abrir espao para pacientes que exigiam tratamentos caros ou cuja estada no seria prolongada  em outras palavras, mais lucrativos. A divulgao, no fim de fevereiro, do macabro esquema comandado por Virgnia para "desentulhar a UTI"  palavras suas, registradas em gravaes telefnicas  revelou uma presuno de poder, uma frieza e um descaso capazes de revirar at estmagos menos sensveis. 
     Os pronturios carregam nitidamente o carimbo lgubre do kit morte usado para "girar leitos" (outra expresso de Virgnia) no Hospital Evanglico. A maior parte dos pacientes recebeu doses de quatro medicamentos  para se ter uma ideia, apenas um deles, administrado de uma vez s e nas quantidades relatadas, seria capaz de levar  morte. Em seguida, de acordo com todos os depoimentos, o nvel de oxignio era reduzido ao mnimo, eliminando as chances de sobrevivncia (veja o quadro na pg. 82). Na maioria dos pronturios, a queda na oxigenao no aparece, o que indica uma manipulao dessa informao. "Mas as testemunhas no deixam dvida sobre a diminuio do oxignio. Em alguns pronturios, ela ficou gravada, como uma confisso de assassinato", diz a promotora Fernanda Nagl Garcez,  frente das investigaes. Em meio  papelada mdica, a histria de um homem de 29 anos, ferido a bala, escancara a premeditaco. No 12 dia de UTI, Virgnia registrou em seu pronturio, s 12h30 do dia 24 de setembro de 2009: "Evoluo de bito esperado". s 13h35, num exerccio de prestidigitao, seu comparsa Claudinei digitou o horrio do bito: 14h55. O paciente viria mesmo a morrer nessa precisa hora  apenas nove minutos depois de receber o famigerado kit morte. 
     Os depoimentos pintam um quadro detalhado da rotina de horrores praticada no hospital. Uma linha invisvel repartia os leitos da UTI: de um lado, oito deles recebiam os pacientes com mais chance de sobrevivncia; do outro, seis alojavam aqueles com probabilidades menores. Esse era conhecido como o "caminho da morte", onde Virgnia e seus asseclas mais acuavam. Mesmo quem no fazia parte do esquema sabia do que ocorria na UTI, sobretudo no lado dos condenados. Uma enfermeira relata que foi encarregada de enviar  UTI geral trs pacientes que haviam sido internados na unidade coronariana um ms antes. A moa procurou ento o mdico Edison Anselmo (outro acusado) para informar que pelo menos um deles iria necessitar de novos exames. "Edison respondeu: 'Voc realmente acha que este paciente estar vivo para realizar os exames'?, contou a enfermeira  polcia, enfatizando: "Ele faleceu no dia seguinte, e os outros morreram dois ou trs dias depois". Alm de levar s ltimas consequncias o af de desocupar vagas para acomodar novos pacientes, Virgnia constantemente prescrevia procedimentos invasivos desnecessrios e at contraindicados, sempre com o propsito de "render mais dinheiro" para o hospital, segundo a polcia. 
     A mdica Virgnia, 56 anos,  descrita como pessoa violenta, prepotente e insensvel. s vezes, relatam as testemunhas, assistia aos pacientes agonizando pela falta de ar sem esboar reao. Com frequncia, submetia os subordinados a humilhaes e agresses, inclusive fsicas, como puxar cabelo e at arremessar sapatos (o que certa ocasio lhe custou uma suspenso). "Muitas vezes escutei a doutora dizer: 'Aqui no existe Deus; quem decide quem vive e quem morre sou eu'", refora uma testemunha ouvida por VEJA. Em uma das muitas amostras de absoluta insensibilidade da Doutora Morte, ela apelidou os dois dias na semana em que reunia os parentes dos doentes na capela do hospital, para informar sobre seu estado de sade, de "dia do cai-cai", porque alguns desmaiavam ao ouvir as notcias. 
     Virgnia e os demais acusados chegaram a ser presos, mas agora aguardam em liberdade a Justia decidir se sero levados ao banco dos rus. O advogado da mdica, Elias Mattar Assad, faz ironia contra as acusaes: "Vamos discutir tica mdica num processo criminal? Eles provaram que algum morreu, mas no h um elemento que mostre que a morte foi causada por ao humana". Assad, por sinal, tem seus honorrios pagos pelo deputado federal Andr Zacharow, que comandou o Hospital Evanglico por mais de vinte anos e  velho amigo de Virgnia. Ao contrrio do que o advogado apregoa, as evidncias de ao humana so abundantes nos documentos j examinados. Agora, uma junta de especialistas das secretarias municipal e estadual e do Ministrio da Sade vai analisar, caso a caso, as 317 mortes sobre as quais os pronturios lanam suspeitas  um roteiro tenebroso sobre como a Doutora Morte, fria e calculadamente, "desentulhou" a UTI que comandava. Se se confirmar que nesse material se repete o ttrico ritual de execues, Virgnia, formada para salvar vidas, pode se tornar uma das maiores homicidas que o Brasil j conheceu. 

KIT DA MORTE
Os 21 pronturios obtidos por VEJA revelam o modus operandi da mdica Virgnia: o uso de um coquetel de medicamentos depressores do sistema nervoso central e o aporte mnimo de oxignio.

COQUETEL DE MEDICAMENTOS

DIPRIVAN
Dose: 10 miligramas (1 ou 2 ampolas)
Princpio ativo: Propofol
Funo: Anestsico
Uso em UTI: Deixa o paciente inconsciente para ser submetido a um procedimento cirrgico ou para permanecer em ventilao mecnica durante um perodo em que a condio clnica  grave. Essa foi uma das substncias que, em 2009, levaram Michael Jackson  morte.

PAVULON
Dose: 4 miligramas (2 ou 3 ampolas)
Princpio ativo: Pancurnio
Funo: Relaxante muscular
Uso em UTI: Desde a dcada de 90, deixou de ser utilizado de forma rotineira na UTI. Atualmente, pode ser usado em casos isolados, quando o paciente est inconsciente, sedado e ainda assim apresenta esforo respiratrio.

FENTANIL
Dose: 0,05 miligrama (1 frasco)
Princpio ativo: Citrato de fentanila
Funo: Analgsico
Uso em UTI: Provoca uma sedao de intensidade leve a moderada.  um medicamento que d conforto ao paciente e permite que ele fique mais desperto, capaz de responder a estmulos como contato visual e aperto de mo. Ele torna o doente menos dependente da ventilao mecnica.

THIONEMBUTAL
Dose: 1 grama (1 frasco)
Princpio ativo: Tiopental
Funo: Anestsico
Uso em UTI: Raramente utilizado na UTI, porque causa uma perigosa queda da presso arterial. Seu uso  restrito a uma condio especfica: traumatismo craniano, com hipertenso intracraniana grave. Nesse caso, ele serve para induzir o coma.

As vezes, um dos medicamentos do coquetel acima era substitudo por:

DORMONID
Dose: 15 miligramas (1 a 3 ampolas
Princpio ativo: Midazolam
Funo: Hipntico
Uso em UTI: Tira a conscincia e faz com que o paciente fique confortvel durante o perodo de ventilao mecnica.

KETALAR
Dose: 50 miligramas (1 frasco)
Princpio ativo: Cetamina
Funo: Anestsico
Uso em UTI: No costuma ser usado na UTI.  comum em ambiente de emergncia, caso o paciente esteja com a presso baixa e necessite ser entubado.

COMENTRIO GERAL
Com exceo da cetamina, todos os medicamentos provocam queda na presso. Aplicar esses remdios ao mesmo tempo, em uma "dose de ataque",  uma atitude criminosa. Apenas um deles, administrado na quantidade relatada e de uma s vez,  capaz de causar a morte.

CONCENTRAO DE OXIGNIO: 21%
Uma concentrao de oxignio de 21%  o que qualquer pessoa respira no ar ambiente. Um paciente internado, com chance de recuperao, depende de uma maior concentrao de oxignio para manter suas funes orgnicas estveis.  medida que o doente melhora, essa concentrao pode ser reduzida. Uma diminuio brusca, de 60% para 21%, conforme relatado,  incorreta. Nesse caso, a morte  acelerada.

COM REPORTAGEM DE NATALIA CUMINALE


6. AVIAO  GORDO PAGA MAIS
O preo da passagem na Samoa Air agora depende do peso do passageiro. Outras companhias pensam fazer o mesmo, porque cada quilo a mais aumenta o custo do voo.

     H dois anos, a Air New Zealand anunciou que as passagens custariam mais caro para gordos. Era piada de 1 de abril. Na semana passada, a Samoa Air soltou notcia parecida. Desta vez  para valer. A Samoa Air, que comeou a operar no ano passado no Pacfico Sul, tornou-se a primeira empresa area a perguntar o peso do passageiro e de sua bagagem ao reservar a passagem.  a soma desses fatores que determina o valor a ser pago. Para no ser enganada por quem esconde quilinhos extras, a companhia submete o viajante, assim como suas malas, ao teste da balana no check-in. O novo sistema de fixao do preo da passagem leva em conta que a maior varivel para o custo de um voo  o peso transportado. Quanto mais alto esse fator, maior  o gasto de combustvel. "Nas companhias, principalmente as menores, pouco se pode aceitar na variao de peso na aeronave", justifica Chris Langton, presidente da Samoa Air. Como antes o valor da passagem era estimado com base no peso mdio do passageiro, Langton afirma que magros acabavam pagando pela gordura alheia. 
     A relao peso-custo  questo bsica na aviao. Cada quilo transportado por um Boeing 777, alm das 144 toneladas da estrutura do avio, consome 50 centavos de dlar de combustvel por hora de voo. O economista noruegus Bharat Bhatta calculou que cada quilo retirado de um avio comercial representa uma economia anual de 3000 dlares. O combustvel equivale a 18% dos gastos de uma empresa area. O impacto  maior para a Samoa Air, que voa distncias de no mximo 180 quilmetros com trs avies pequenos, com cerca de 1 tonelada cada um, e capacidade, no maior deles, de nove passageiros. A empresa opera na Polinsia, onde a obesidade  tradicionalmente vista como sinal de riqueza. A chegada da calrica e abundante comida ocidental permitiu que, no espao de uma gerao, uma grande quantidade de polinsios pudesse ostentar a desejada gordura dos abastados. Nas duas ilhas de Samoa, localizadas a 4000 quilmetros da Austrlia, 70% dos 190.000 habitantes so obesos. Companhias maiores estudam adotar mtodos de cobrana similares. Em algumas, como na Air France e na United Airlines, obesos que ocupam dois assentos j pagam dobrado. Em sua pesquisa, Bhatta aponta outra vantagem no novo sistema: "Alm de justa, essa cobrana incentiva passageiros a perder peso". 

Quanto mais pesado o avio, maior o consumo de combustvel
 Cada quilo extra num Boeing 777 custa 50 centavos de dlar a mais de combustvel por hora de voo 
 A Samoa Air soma o peso do passageiro ao de sua bagagem e cobra entre U$ 0,44 e U$ 1,05 por quilo

FILIPE VILICIC E VICTOR CAPUTO


7. URBANISMO  PACTO PARA RESSUSCITAR UMA CIDADE
O maior projeto de recuperao urbana do Brasil vai criar dezessete novos bairros em So Paulo e transformar regies degradadas da cidade em reas residenciais at 2018.
OTVIO CABRAL

     At o incio da dcada de 70, praticamente metade do produto interno bruto da cidade de So Paulo vinha da indstria. Grandes galpes ocupavam bairros como Brs, Barra Funda, Mooca e Belenzinho e eram exemplos da pujana fabril paulistana. Nas dcadas seguintes, o crescimento da populao, a dificuldade de escoamento da produo em uma capital com o trnsito catico e os incentivos fiscais de outras regies tiraram essas fbricas de So Paulo. A metrpole encontrou outra vocao  hoje, o setor de servios responde por 65% do PIB. Os galpes foram abandonados. Casares que simbolizavam o status dos bares da indstria se transformaram em cortios. As reas anteriormente prsperas se tornaram um retrato da degradao urbana. Nas ltimas trs dcadas, iniciativas isoladas tentaram sem sucesso recuperar a regio central da cidade. Na semana passada, buscando reverter de vez a situao, o governo do estado deixou de lado as disputas polticas e fechou uma parceria com a Unio, a prefeitura e a iniciativa privada para lanar o maior programa de recuperao urbana do Brasil. 
     O Casa Paulista prev a construo de 20.000 moradias nos prximos quatro anos, ao custo de 4,6 bilhes de reais.  a primeira parceria pblico-privada do pas para habitao. "O objetivo no  apenas construir moradias populares nos moldes do antigo BNH ou do Minha Casa, Minha Vida, mas ressuscitar uma regio essencial da cidade que est abandonada", afirma o governador de So Paulo, Geraldo Alckmin. Para isso, o projeto inclui a restaurao de construes histricas e a substituio de velhos galpes por prdios  20% dos quais, pelo menos, sero destinados a comrcio e servios, de modo a aumentar a possibilidade de as pessoas trabalharem e fazerem compras perto de casa. Entre os prdios, sero construdos bulevares e reas para esporte interligados por ciclovias. 
     No incio do ano passado, o governo estadual lanou um edital convocando empresas interessadas em propor modelos de habitao para a regio central de So Paulo. O concurso foi vencido pelo Instituto de Urbanismo e de Estudos para a Metrpole (Urbem)  uma organizao que atua na recuperao urbanstica. O Urbem contratou 73 pessoas, entre arquitetos, economistas, socilogos e advogados, para fazer um diagnstico dos problemas do centro e apontar solues. Ao custo de 30 milhes de reais, produziu doze volumes, de 300 pginas cada um, com detalhes da situao fundiria, jurdica e arquitetnica da regio. O projeto prev a construo de dezessete bairros em forma de crculo, com raio de 600 metros, tendo sempre uma estao de trem ou de metro como centro. "Percebemos que havia uma falha dupla. O mercado v a habitao apenas como uma oportunidade de negcios, e cria guetos de bem-estar. E o governo no estabelece regras para permitir uma ocupao condizente com as mudanas da cidade", avalia Philip Yang, fundador do Urbem. "Mostramos que  possvel ter lucro com habitao popular, mas deixando um legado para a cidade e para a vida da populao." 
     Na campanha para prefeito, Yang levou o projeto aos candidatos Fernando Haddad (PT) e Jos Serra (PSDB). Logo aps ser eleito, Haddad se reuniu com Yang e Alckmin para se comprometer a apoiar a iniciativa. Quanto mais complexo o projeto, mais ele depende de parcerias como essa para sair do papel. No caso do Casa Paulista, a responsabilidade pela habitao  do estado, mas o trnsito, a legislao e boa parte dos terrenos so do municpio. Sem a unio dos trs nveis de poder  o principal financiador  federal, a Caixa Econmica Federal , as questes burocrticas tm grande chance de levar a melhor. A ideia  destinar 12.000 das 20.000 moradias a famlias com renda de at cinco salrios mnimos paulistas  3700 reais. "Esse projeto, alm de ter uma funo social,  uma iniciativa para estimular o desenvolvimento econmico de uma regio essencial da cidade", avalia Fernando de Mello Franco, secretrio municipal de Desenvolvimento Urbano. O edital para a contratao das construtoras que tocaro o projeto ser divulgado em maio. O objetivo  que os contratos sejam assinados at outubro, e as primeiras unidades, entregues em  janeiro de 2015. At 2018, toda a reurbanizaco dever estar concluda. 
     Muitos ainda se lembram da "So Paulo Tower", cujo projeto delirante o empresrio Mrio Garnero divulgou em 1999, e que deveria ficar pronto em 2005. Era para ser o maior edifcio do mundo  e, claro, nunca saiu do papel. Por essas e outras, os paulistanos desconfiam da viabilidade de projetos ambiciosos para a cidade. Desta vez, porm, a racionalidade do projeto, a indita unio de foras e a supresso, ainda que momentnea, das rivalidades polticas em prol de uma boa ideia so motivo de esperana.


8. SADE  NO AJUDA EM NADA
Todo mundo faz alongamento antes dos exerccios. Novos estudos mostram que isso reduz o desempenho dos esportistas.

     Quem pratica atividades fsicas costuma estar atento  importncia dos alongamentos. Nas academias, invariavelmente, a orientao  fazer uma srie deles antes do primeiro exerccio. As posies devem ser mantidas por pelo menos vinte segundos a fim de reduzir o risco de leses e deixar os msculos mais fortes e preparados para o impacto dos pesos, da corrida ou do jogo de futebol. Infelizmente, o resultado pode ser o oposto. Dois estudos recentes concluram que alongar-se antes dos exerccios reduz a potncia e a fora muscular, alm de aumentar o risco de leses. 
     O mais surpreendente desses estudos foi conduzido pela Universidade de Zagreb, na Crocia. Os cientistas reuniram 104 pesquisas que analisavam o desempenho de voluntrios em modalidades como natao, corrida e musculao logo depois de realizar alongamentos estticos. O cruzamento desses dados revelou que os exerccios de flexibilidade prejudicavam o desempenho ao reduzir a fora dos msculos em 5,5%, a capacidade de produzir contraes em 2% e a aptido para treinos de exploso em 2,8%. 
     Outro estudo divulgado neste ms pela publicao especializada americana The Journal of Strength and Conditioning Research mostrou que homens jovens que se exercitaram frequentemente levantam 8,3% menos peso quando fazem movimentos de flexibilidade antes da musculao. O motivo pelo qual o alongamento prejudica o desempenho ainda no  totalmente conhecido, mas autores de ambos os estudos sugerem que a atividade relaxa a musculatura e os tendes, deixando-os menos dispostos a estocar energia e  ao. 
     Os alongamentos podem favorecer leses porque relaxam e estressam a musculatura. O neurofisiologista Paulo Correia, coordenador do Laboratrio de Neurofisiologia e Exerccio da Universidade Federal de So Paulo (Unifesp), endossa as pesquisas. Diz ele: "Os exerccios de flexibilidade so teis para melhorar a performance, mas devem ser feitos em um dia reservado apenas para eles ou pelo menos duas horas aps o treino de fora ou resistncia". A melhor alternativa antes de qualquer exerccio  fazer um aquecimento. "Sugiro aos meus pacientes comear com movimentos similares queles que sero realizados, mas sem carga ou impacto excessivo", diz o ortopedista Moiss Cohen, da Unifesp. Polichinelo, elevao de pernas e rotao de braos so boas opes. 

O OUE SE DESCOBRIU
At hoje, recomendavam-se alongamentos estticos, em que se fica parado em determinadas posies por pelo menos vinte segundos, para prevenir leses e melhorar o desempenho nas atividades fsicas.
Novas pesquisas mostram que, pelo contrrio, os alongamentos estticos antes do treino reduzem:
Em 5,5% a fora do msculo alongado
Em 2% a potncia do msculo, ou seja, a habilidade de produzir contraes
Em 2,8% a capacidade de exploso nas atividades em que se intercala corrida moderada com arranques
Em 8,3% a capacidade de levantar pesos.

A FORMA CERTA DE AQUECIMENTO
Movimentos leves, similares queles que sero realizados na atividade, como fazem os jogadores de futebol minutos antes do incio das partidas.

FERNANDA ALLEGRETTI


9. RELIGIO  CONVERSA NA CATEDRAL
VEJA publica, com exclusividade, trechos dos dilogos entre Jorge Bergoglio, o ento arcebispo de Buenos Aires e hoje papa Francisco, e o rabino Abraham Skorka. O resultado  um duelo de inteligncias.

No havia tema proibido nos encontros realizados semanalmente, ao longo de 2010, entre as duas maiores autoridades religiosas da Argentina  o ento arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, e o rabino Abraham Skorka, doutor em qumica, professor de Bblia e de literatura rabnica no Seminrio Rabnico Latino-Americano. As conversas, quase sempre na catedral portenha, muitas vezes no escritrio de Skorka, trataram de atesmo, celibato, homossexualidade, aborto e divrcio. O resultado foi transformado no livro Sobre o Cu e a Terra (traduo de Sandra Martha Dolinsky; Paralela; 208 pginas; 24,90 reais). No h guia mais adequado para entender a cabea do papa Francisco, o jesuta com comportamento franciscano.

 ATESMO
JORGE BERGOGLIO Quando me encontro com pessoas ateias, compartilho com elas as questes humanas, mas no toco de cara no problema de Deus, exceto no caso de falarem comigo sobre o assunto. Quando isso acontece, eu lhes conto por que acredito. O humano  to rico para compartilhar, para trabalhar, que tranquilamente podemos complementar mutuamente nossas riquezas. Como sou crente, sei que essas riquezas so um dom de Deus. Tambm sei que o outro, o ateu, no sabe disso. No encaro a relao para fazer proselitismo com um ateu, eu o respeito e me mostro como sou. Na medida em que haja conhecimento, aparecem o apreo, o afeto, a amizade. No tenho nenhum tipo de reticncia, no diria que sua vida est condenada, porque tenho certeza de que no tenho direito de julgar a honestidade dessa pessoa. Muito menos quando me mostra virtudes humanas, essas que engrandecem as pessoas e me fazem bem. De qualquer forma, conheo mais gente agnstica que ateia; o primeiro  mais dubitativo, o segundo est convencido. Temos de ser coerentes com a mensagem que recebemos da Bblia: todo homem  imagem de Deus, seja crente ou no. Por essa nica razo, ele conta com uma srie de virtudes, qualidades, grandezas. E caso tenha baixezas, como eu tambm as tenho, podemos compartilh-las para nos ajudar mutuamente a super-las.

ABRAHAM SKORKA Concordo com o que o senhor disse: o primeiro passo  respeitar o prximo. Mas eu acrescentaria um ponto de vista: quando uma pessoa diz "eu sou ateu", acredito que est assumindo uma postura arrogante. A posio mais rica  a daquele que duvida. O agnstico pensa que ainda no encontrou a resposta, agora o ateu tem certeza, 100%, de que Deus no existe. Tem a mesma arrogncia de quem garante que Deus existe, tal como existe esta cadeira sobre a qual estou sentado. Ns, religiosos, somos crentes, no damos por certa Sua existncia. Podemos perceb-la em um encontro muito, muito, mas muito profundo, mas nunca O vemos. Recebemos respostas sutis. A nica pessoa que, segundo a Tora, explicitamente falava com Deus, cara a cara, era Moiss. Aos outros  Jac, Isaac , a presena de Deus chegava em sonhos ou em refraes. Dizer que Deus existe, como se fosse mais uma certeza, tambm  uma arrogncia, por mais que eu acredite que Deus existe. No posso afirmar superficialmente Sua existncia porque tenho de ter a mesma humildade que exijo do ateu. O exato seria dizer  como Maimnides enuncia em seus treze princpios da f  "eu acredito com f plena que Deus  o Criador". Seguindo a linha de Maimnides, podemos dizer o que Deus no , mas no podemos assegurar o que Deus . Podemos mencionar suas qualidades, seus atributos, mas de jeito nenhum podemos lhe dar forma. Eu recordaria ao ateu que h uma perfeio na natureza que est enviando uma mensagem; podemos conhecer suas frmulas, mas nunca sua essncia.

 CELIBATO
BERGOGLIO Fao um esclarecimento: o sacerdote catlico no se casa na tradio ocidental, mas pode faz-lo na oriental. Ali, casa-se antes de receber a ordenao; se j foi ordenado, ento no pode se casar. E o laico catlico, que vive em plenitude, est metido no mundo at o pescoo, mas sem se deixar levar pelo esprito do mundo. E isso  muito difcil. Agora, o que acontece conosco, os consagrados? Somos to fracos que sempre h a tentao da incoerncia. Queremos tudo, o bom da consagrao e o bom da vida laica. Antes de entrar no seminrio, eu andava por esse caminho. Mas depois, quando se cultiva essa escolha religiosa, encontra-se fora nesse outro caminho. Eu, pelo menos, vivo assim, o que no impede que se conhea uma garota por a. Quando eu era seminarista, fiquei deslumbrado por uma garota que conheci no casamento de um tio. Fiquei surpreso com sua beleza, sua luz intelectual... e, bem, andei confuso um bom tempo, pensava sem parar. Quando voltei ao seminrio, depois do casamento, no consegui rezar ao longo de uma semana inteira, porque, quando me dispunha a orar, a garota aparecia em minha cabea. Tive de voltar a pensar no que estava fazendo. Ainda era livre porque era seminarista, podia voltar para casa e tchau. Tive de repensar a opo. Tornei a escolher  ou a me deixar escolher  o caminho religioso. Seria anormal se no acontecessem coisas desse tipo. Quando isso acontece, temos de nos situar novamente. Temos de ver se voltamos a escolher ou dizemos: "No, isso que estou sentindo  maravilhoso, tenho medo de que depois eu no seja fiel a meu compromisso. Vou deixar o seminrio". Quando acontece algo assim com algum seminarista, eu o ajudo a ir em paz, a ser um bom cristo e no um mau padre. Na Igreja ocidental,  qual perteno, os padres no podem se casar como nas igrejas catlicas bizantina, ucraniana, russa ou grega. Nelas, os sacerdotes podem se casar; os bispos no, tm de ser celibatrios. Eles so muito bons padres. s vezes debocho deles, digo que tm mulher em casa, mas que no perceberam que tambm compraram uma sogra. No catolicismo ocidental, o tema  discutido impulsionado por algumas organizaes. Por enquanto, a disciplina do celibato se mantm firme. H quem diga, com certo pragmatismo, que estamos perdendo mo de obra. Se, hipoteticamente, o catolicismo ocidental revisasse o tema do celibato, acredito que o faria por razes culturais (como no Oriente), no tanto como opo universal. Por ora, sou a favor de que se mantenha o celibato, com seus prs e contras, porque so dez sculos de boas experincias, mais que de falhas. O que acontece  que os escndalos se vem logo. A tradio tem peso e validez. Os ministros catlicos foram escolhendo o celibato pouco a pouco. At o ano 1100, havia quem optasse por ele e quem no. Depois, no Oriente se seguiu a tradio no celibatria como opo pessoal, e no Ocidente o contrrio.  uma questo de disciplina, no de f. Isso pode mudar. Pessoalmente, nunca passou por minha cabea me casar. Mas h casos. Veja o do presidente paraguaio Fernando Lugo, um sujeito brilhante. Mas, sendo bispo, teve um deslize e renunciou  diocese. Nessa deciso foi honesto. s vezes surgem padres que caem nisso.

SKORKA E qual  a sua postura?

BERGOGLIO Se um deles vem e me diz que engravidou uma mulher, eu o escuto, procuro fazer com que tenha paz e, pouco a pouco, fao-o perceber que o direito natural  anterior a seu direito como padre. Portanto, ele tem de deixar o ministrio e assumir esse filho, mesmo que decida no se casar com essa mulher. Porque, assim como essa criana tem direito a ter uma me, tem direito a ter o rosto de um pai. Eu me comprometo a cuidar de toda a papelada em Roma, mas ele deve deixar tudo. Agora, se um padre me diz que se entusiasmou, que teve um deslize, eu o ajudo a se corrigir. Alguns padres se corrigem, outros no. Alguns, lamentavelmente, nem contam ao bispo.

SKORKA Que significa se corrigir?

BERGOGILO Fazer penitncia, respeitar seu celibato. A vida dupla no nos faz bem, no gosto disso, significa substanciar a falsidade. s vezes lhes digo: "Se no puder superar isso, decida-se".

 CULPA
BERGOGLIO A culpa pode ser entendida em duas acepes: como transgresso e como sentimento psicolgico. Essa ltima no  religiosa; mais ainda, eu me atreveria a dizer que pode inclusive suprir um sentimento religioso, algo assim como a voz interior que diz que me enganei, que agi mal. Algumas pessoas so "culpognicas", porque precisam viver em culpa; esse sentimento psicolgico  doentio. Alm disso, entender-se com a misericrdia de Deus parece muito mais fcil tendo esse sentimento de culpa, porque vou me confessar e pronto: o Senhor j me perdoou. Mas no  to fcil, porque foi simplesmente para que lhe tirassem a mcula. E a transgresso  algo mais srio que uma mera mcula. H pessoas que brincam com isso de culpa, e, ento, transformam o encontro com a misericrdia de Deus em algo como ir  tinturaria,  s limpar a mancha. E assim vo degradando as coisas.

SKORKA Concordo totalmente. Uma coisa  o anedtico  os conselhos populares, a imagem da me judia "culpognica"  , mas isso no tem nada a ver com a essncia da concepo judaico-crist da culpa, porque, quando algum comete uma transgresso, existe uma possibilidade de se redimir. A pessoa tem de mudar para no tornar a cometer essa transgresso. No basta dizer: "Eu me enganei", e acabou a histria.  claro que ajuda fazer uma orao, realizar uma doao como um ato de caridade profundo, mas desde que sejam manifestaes de uma elaborao sincera. Quando se fala que as religies jogam com a transmisso da culpa judaico-crist  uma incompreenso imensa, pois, nessa concepo, o fato de cometer uma transgresso no  o fim do mundo. Todo mundo pode se equivocar, mas  preciso reparar, consertar. E, acima de tudo, no tornar a cometer a falta.

BERGOGLIO A mera culpa pertence ao mundo idoltrico.  mais um recurso humano. A culpa sem reparao no me deixa crescer.

 ABORTO
BERGOGLIO O problema moral do aborto  de natureza pr-religiosa, porque, no momento da concepo, est ali o cdigo gentico da pessoa. Ali j h um ser humano. Separo o tema do aborto de qualquer concepo religiosa.  um problema cientfico. No deixar avanar o desenvolvimento de um ente que j tem todo o cdigo gentico de um ser humano no  tico. O direito  vida  o primeiro dos direitos humanos. Abortar  matar quem no pode se defender.

SKORKA O problema de nossa sociedade  que ela perdeu, em grande medida, o respeito pela sacralidade da vida. O primeiro ponto problemtico  falar do aborto como se fosse um tema simples e o mais normal do mundo. No  assim: por mais que seja uma clula, estamos falando de um ser humano. Portanto, o tema merece um mbito muito especial de discusso. V-se frequentemente que todo mundo d a sua opinio, sem informao exata, sem conhecimentos. O judasmo, em termos gerais, condena o aborto, mas h situaes em que  permitido. Por exemplo, quando a vida da me est em perigo. H diversos casos em que se autoriza o aborto. Mas o interessante  que os antigos sbios judeus do Talmude o proibiram absolutamente nos outros povos quando analisaram as leis dos gentios, o que seria o jus gentium no Talmude. Minha interpretao  que, como sabiam do que acontecia em Roma, queriam evitar ter de discutir a possibilidade do aborto em uma sociedade na qual a vida no era muito respeitada. Podemos encontrar no Talmude uma anlise exaustiva da pena de morte. Embora esse castigo aparea na Tora, alguns sbios so da opinio de que deve ser restringida at tornar impossvel sua aplicao. E h quem defenda com argumentos uma postura menos restritiva. Os sbios de cada gerao  que, com base nas conjunturas que enfrentaro, aplicaro a pena de acordo com um critrio ou outro. Algo semelhante ocorre com o aborto.  claro que o judasmo o abomina e condena, salvo no caso claro, como explica a Mishn, de que a me corra um inquestionvel perigo de morte. Nessas ocasies, privilegia-se sua vida.

 UNIO HOMOSSEXUAL 
SKORKA  O modo como se tratou o tema do casamento homossexual, foi, em meu entender, deficiente no que diz respeito  profundidade da anlise que o assunto merece. Embora de fato j existam muitos casais do mesmo sexo que coabitam e merecem uma soluo legal em questes como penso, herana etc.  que bem podem se enquadrar em uma figura jurdica nova  , equiparar o casal homossexual ao heterossexual j  outra coisa. No  s uma questo de crenas, e sim de ter conscincia de que estamos tocando em um dos elementos mais sensveis da constituio de nossa cultura. Faltaram mais anlises e estudos antropolgicos sobre a questo. Paralelamente a isso,  claro que se deveria ter dado maior espao de informao aos credos, como portadores e formadores de cultura. Deveriam ter sido organizados debates no seio dos prprios credos, com suas variadas tendncias, para formar um espectro completo de opinies.

BERGOGLIO A religio tem direito de opinar, pois est a servio das pessoas. Se algum pede um conselho, tenho direito de d-lo. O ministro religioso s vezes chama a ateno sobre certos pontos da vida privada ou pblica porque  o condutor dos fiis. Mas no tem direito de forar nada na vida privada de ningum. Se Deus, na criao, correu o risco de nos fazer livres, quem sou eu para me meter? Ns condenamos o assdio espiritual, que acontece quando um ministro impe de tal modo as normas, as condutas, as exigncias, que priva a liberdade do outro. Deus deixou em nossas mos at a liberdade de pecar. Temos de falar muito claro dos valores, dos limites, dos mandamentos, mas o assdio espiritual, pastoral, no  permitido.

SKORKA (...) A lei judaica probe relaes entre homens. Estritamente, o que diz a Bblia  que os homens no devem ter relaes no estilo das que homens tm com mulheres. Disso se deduz toda uma postura. O ideal do ser humano, desde o Gnesis,  unir um homem e uma mulher. A lei judaica  clara: no pode haver homossexualidade. Por outro lado, eu respeito qualquer indivduo, desde que mantenha uma atitude de recato e intimidade. Em relao  nova lei, no me convence do ponto de vista antropolgico. Ao reler Freud e Lvi-Strauss quando se referem aos elementos formadores daquilo que conhecemos como cultura, e o valor que do  proibio das relaes incestuosas e  tica sexual, como base do processo de civilizao, preocupam-me os resultados que essas mudanas podem produzir no seio de nossa sociedade.

BERGOGLIO Penso exatamente a mesma coisa. Para defini-lo, eu utilizaria a expresso "retrocesso antropolgico", porque seria debilitar uma instituio milenar criada de acordo com a natureza e a antropologia. H cinquenta anos, o concubinato no era uma coisa socialmente to comum como agora. Era at uma palavra claramente pejorativa. Depois, a situao foi mudando. Hoje, coabitar antes de se casar, embora no seja o correto do ponto de vista religioso, no tem o peso social pejorativo de cinquenta anos atrs.  um fato sociolgico, que certamente no tem a plenitude nem a grandeza do casamento, que  um valor milenar que merece ser defendido. Por isso, alertamos sobre sua possvel desvalorizao, e, antes de modificar uma jurisprudncia,  preciso refletir muito sobre tudo o que est em jogo. Para ns tambm  importante o que o senhor acaba de apontar, a base do direito natural que aparece na Bblia, que fala da unio do homem e da mulher. Sempre houve homossexuais. A ilha de Lesbos era conhecida porque ali viviam mulheres homossexuais. Mas nunca ocorreu na histria que se tentasse dar a essa relao o mesmo status do casamento. Era tolerada ou no, admirada ou no, mas nunca equiparada.

 DIVRCIO
BERGOGLIO O tema do divrcio  diferente daquele do casamento de pessoas do mesmo sexo. A Igreja sempre repudiou a Lei de Divrcio Vincular, mas  verdade que h antecedentes antropolgicos diferentes nesse caso. Nessa oportunidade, nos anos 1980, deu-se um debate mais religioso, porque o casamento at que a morte os separe  um valor muito forte no catolicismo. Hoje, entretanto, na doutrina catlica recordamos a nossos fiis divorciados e casados de novo que no esto excomungados  embora vivam em uma situao  margem daquilo que a indissolubilidade matrimonial e o sacramento do casamento exigem , e lhes pedimos que se integrem  vida paroquial. As igrejas ortodoxas ainda tm uma abertura maior em relao ao divrcio. Naquele debate houve oposio, mas com matizes. Houve posies extremas que nem todos compartilhavam. Alguns diziam que era melhor que no se aprovasse o divrcio, mas tambm havia outros mais abertos ao dilogo do ponto de vista poltico.

SKORKA Na religio judia, a instituio do divrcio existe, sendo aplicada na Halach, a legislao rabnica.  claro,  um drama. No  uma questo de f, como no catolicismo, porque sua posio deriva da leitura dos Evangelhos, que dizem que Jesus teve uma postura dura em relao ao divrcio, como a adotada pela casa de Shamai, conforme atesta o Talmude. Para o judasmo, quando o casamento no d certo, quando depois de muitos esforos para conciliar as partes as incompatibilidades persistem, ento ajudamos a formalizar o ato de divrcio. Exponho o tema nesses termos porque, no judasmo, o rabino ou o tribunal rabnico no declaram nem decretam o novo estado das partes, s supervisionam para que a dissoluo seja de acordo com as normas. So o homem e a mulher que assumem e declaram seu novo estado, assim como quando se casam.  um ato ntimo do casal, supervisionado por um conhecedor da lei para confirmar que o realizado  correto. Por isso no foi to conflituoso aquele debate. Algo parecido aconteceu quando foram discutidos os mtodos de reproduo assistida. O judasmo era a favor porque era uma maneira de ajudar Deus para que uma mulher pudesse ser me, para melhorar a condio do indivduo sofredor.  uma postura mais dinmica que a catlica. O catolicismo  mais duro, tem posturas mais restritivas nesses temas. Mas, quando se levantam todas essas questes no seio de uma sociedade democrtica,  preciso tentar chegar a consensos. 


10. MEDICINA  DUAS MES E UM PAI
O controle de doenas transmitidas por herana materna ganha um aliado  a criao de embries a partir do material gentico de duas mulheres e um homem.
ADRIANA DIAS LOPES

     Referncia mundial nos estudos sobre embriologia, a Inglaterra estuda a possibilidade de aprovar uma das mais fascinantes e inovadoras (controversas, sem dvida) tcnicas de reproduo humana: a formao de um embrio a partir do material gentico de duas mulheres e um homem. O Human Fertilisation and Embryology Authority (HFEA), rgo responsvel pelas normas inglesas sobre fertilizao humana, j deu o aval para a prtica. Com o nome de transferncia de DNA mitocondrial, o procedimento tem por objetivo o controle de doenas genticas transmitidas por herana materna. Entre elas, alguns tipos de doenas musculares, cegueira, epilepsia e retardo mental. Tais distrbios acometem uma a cada 6000 pessoas e esto associados a defeitos no DNA mitocondrial. A ideia , durante a fertilizao in vitro, substituir o DNA mitocondrial doente da me biolgica pelo saudvel da doadora. 
     Localizado no citoplasma celular, o DNA mitocondrial representa 0,02% dos genes de um ser humano e est envolvido exclusivamente na produo de energia celular  sem a qual no h vida. O DNA mitocondrial da me e o do pai nunca se misturam durante a concepo. Aqui um parntese: os espermatozoides tambm possuem esse tipo de material gentico, mas ele  eliminado no momento da fecundao, por protenas fabricadas pelo vulo. Por isso, o DNA mitocondrial  sempre herdado da me. Os 99,98% restantes de nossa gentica esto associados ao DNA nuclear. Resultado da combinao dos genes da me e do pai,  ele que determina a cor de nossos olhos, a textura de nosso cabelo, a nossa estatura, se temos ou no propenso para engordar... Ou seja, um beb concebido a partir de um vulo que teve seu DNA mitocondrial modificado no ter as caractersticas fsicas da doadora  e sim as da mame e do papai (veja o quadro abaixo). 
     Como sempre ocorre com a imensa maioria das iniciativas na rea da reproduo humana, o transplante de DNA mitocondrial envolve questes ticas delicadssimas. Uma delas  a impossibilidade de prever a segurana do procedimento em longo prazo  a no ser testando-o em seres humanos. Ainda se desconhecem os efeitos que possam surgir, ao longo da vida, da interao de DNAs de pessoas diferentes  no caso, a me e a doadora. Isso porque o DNA nuclear e o DNA mitocondrial produzem protenas que interagem durante o tempo todo para o bom funcionamento das clulas. Parte das protenas produzidas pelo DNA mitocondrial s exerce sua funo a contento ao se misturar com as protenas do DNA nuclear. E vice-versa. H outra questo a ser discutida. Poderiam surgir novas doenas dessa interao? 
     Se aprovado, o transplante de DNA mitocondrial ser o primeiro procedimento de manipulao gentica das clulas germinativas (vulo e espermatozoide) adotado legalmente como tratamento mdico nas clnicas de reproduo assistida. A autorizao desse tipo de manipulao representa um grande avano para evitar a transmisso de doenas de origem gentica. No entanto, pode, teoricamente, abrir caminho para experimentos perigosos, como os que permeiam a eugenia. 
     A retirada do DNA de um vulo  um procedimento delicado. A tcnica ganhou segurana e eficcia sobretudo nos ltimos dois anos, graas ao desenvolvimento de microscpios de ltima gerao, com softwares refinados, capazes de rastrear com grande exatido estruturas minsculas sem danific-las no momento de sua extrao. At agora, o transplante de DNA mitocondrial utilizado em estudos clnicos s era realizado a partir de um embrio  cujo 0,5 milmetro de dimetro  pelo menos 30% maior do que o tamanho de um vulo. O resultado da tcnica mais antiga era, consequentemente, menos seguro: cerca de 2% do DNA mitocondrial doente costuma ser transferido junto, o que aumenta a possibilidade de o problema materno ser transferido para o beb. No caso da extrao no vulo, apenas 0,3% do DNA mitocondrial  transplantado inadvertidamente. 
     A transferncia de DNA foi desenvolvida nos anos 90 pelo pesquisador holands Jacques Cohen, em sua clnica no estado americano de Nova Jersey. Cohen usou o procedimento em cerca de trinta crianas. Uma delas tem autismo. No se sabe exatamente se a origem da doena est associada  tcnica utilizada. Mas esse tipo de estudo foi proibido nos Estados Unidos. Os desafios so imensos, mas a avenida aberta  extraordinria. 

TROCA DE DNA
Como  a tcnica que permite a formao de um vulo com material gentico de duas mulheres
OS DOIS TIPOS DE DNA
Todas as clulas do nosso organismo possuem dois tipos de DNA
DNA nuclear - Localizado no ncleo das clulas,  responsvel por 99,98% do cdigo gentico humano. Ele determina as nossas caractersticas fsicas e est associado a uma srie de aspectos da nossa sade.
DNA mitocondrial - Localizado no citoplasma, representa 0,02% do material gentico humano e est relacionado  produo de energia de todas as clulas do organismo.
O PROCEDIMENTO
Passo 1 - O DNA nuclear  extrado do vulo da doadora. O DNA mitocondrial da clula  mantido
Passo 2 - O DNA nuclear do vulo da me  extrado e transferido para o vulo da doadora que foi manipulado
Passo 3 - O vulo da doadora, agora composto de material gentico de duas mulheres,  fertilizado e transferido para o organismo da me.

NOVAS REGRAS NO BRASIL
     A reproduo assistida brasileira  desprovida de uma legislao especfica  ao contrrio do que ocorre em pases que so referncia no assunto, como Inglaterra, Frana e EUA. A lei que chega mais prximo do assunto  a de biossegurana, editada em 2005 com o objetivo de regulamentar a pesquisa com clulas-tronco embrionrias. A regulamentao dessa rea da sade  feita por meio de resolues do Conselho Federal de Medicina (CFM). As normas no tm poder legal, mas o mdico que no as seguir  submetido a sanes que vo de advertncia  cassao do registro. At hoje, haviam sido editadas duas resolues na rea. A mais recente era de 2010. O CFM acaba de criar a terceira, com mudanas relevantes. 
     Uma das alteraes mais decisivas trata do descarte de embries no aproveitados pelas clnicas de medicina reprodutiva. Estima-se que haja 25.000 embries excedentes de tratamentos de fertilizao in vitro no Brasil, estocados em 170 centros de reproduo humana. Cerca de 30% deles no so mais utilizados pelos casais. "Pela lei de biossegurana, no entanto, eles no podem ser jogados fora. Podem, no mximo, ser usados em pesquisas clnicas  e, mesmo assim, com uma srie de restries", diz Edson Borges, diretor da Clnica Fertility, em So Paulo. A nova resoluo autoriza o mdico a descartar qualquer embrio congelado por mais de cinco anos, sempre com o consentimento dos pais. Outra mudana da nova resoluo do CFM  sobre a idade da mulher que se submete s tcnicas de reproduo assistida. O limite passa a ser de 50 anos, a idade mdia da menopausa. No havia restries at ento. O CFM tambm contemplou os homossexuais, que passam a ter todos os direitos dos casais heterossexuais. A nova resoluo do CFM passa a valer a partir de sua publicao no Dirio Oficial, prevista para ocorrer nas prximas semanas. 


11. CELEBRIDADES  POSTOU, FATUROU
Acompanhados por milhes de fiis seguidores, os tutes e  fotos dos famosos nas redes sociais embutem anncios que vo de carros a crdito bancrio. Tudo muito bem pago, claro.
ALVARO LEME

     Se fosse publicado no Twitter de Sabrina Sato e tivesse o propsito de vender alguma coisa, o texto de 4000 caracteres que ocupa estas pginas caberia em trinta posts e renderia  apresentadora espantosos 450.000 reais. Isso mesmo: cada vez que Sabrina, a profetisa de 5,8 milhes de seguidores no Twitter e 616.000 no Instagram, usa sua pgina para elogiar algum produto em sua tpica linguagem informal ou em fotos "amadoras", ela embolsa cerca de 15.000 reais. Basta postar, por exemplo, "Pernas prontas para o Carnaval!", seguido do link para uma marca de lmina de barbear, e pronto  o cach pinga na conta. Fenmeno de mdia, capaz de fazer uma foto tomando caf da manh com amigos reverberar pelas redes sociais, Sabrina  hors-concours nesta modalidade da indstria da fama que no para de crescer: a das celebridades que transformaram suas redes sociais em mquinas de dinheiro. "A procura por esse tipo de servio cresceu cerca de 50% do ano passado para c", estima a irm e empresria Karina Sato. Bons ventos sopram tambm no escritrio responsvel pela comercializao do Twitter e do Instagram da atriz Fernanda Paes Leme. Fernanda nem  to famosa assim, mas sua assiduidade na rede lhe rendeu quase 2,8 milhes de seguidores somando o Twitter e o Instagram e influncia para fechar bons negcios. "J aconteceu de o pessoal da Globo me perguntar se eu posso fazer um de meus tutes poderosos para divulgar alguma novidade na programao. Sempre dou uma forca  sem cobrar nada, bvio", diz ela, desde outubro no ar na abilolada novela Salve Jorge. 
     De aparelhos de depilar e xampus a emprstimos bancrios e chinelos de dedo,  possvel encontrar quase tudo nas timelines (aos no iniciados: as pginas contendo mensagens) das celebridades. Cada tute patrocinado do ator Bruno Gagliasso, outro campeo do gnero, custa, em mdia, 12.000 reais, mas ele j chegou a faturar 80.000 reais por um pacote de posts numa campanha feita exclusivamente para seus 2,4 milhes de seguidores no Twitter. Aes numa nica rede social so raras. Os ganhos das celebridades com frases e fotos na internet quase sempre so negociados na forma de campanhas publicitrias, que aliam a divulgao na internet a comerciais em TV e aparies em eventos. O Brasil  um dos precursores na prtica dos tutes patrocinados. Em 2009, o apresentador Marcelo Tas fechou contrato com uma empresa de telefonia para escrever um punhado de mensagens elogiosas em seu Twitter, ento com 18.000 seguidores (hoje so quase 4 milhes). O assunto virou reportagem no Wall Street Journal, que chamou ateno para o enorme potencial do negcio entre os famosos americanos. No deu outra: um post de Kim Kardashian, a rainha dos reality shows, no sai por menos de 10.000 dlares (mais de 20.000 reais). 
     No universo da publicidade, associar-se a pessoas famosas no  novidade nenhuma, mas os tutes patrocinados oferecem uma rara combinao de custo baixo, retorno elevado e pblico de perfil muito bem definido. Enquanto um comercial de TV demanda altssimo investimento em confeco e divulgao, uma tuitada bem dirigida requer nada mais do que uma frase ou foto engraadinha e pronto: milhares de pessoas so fisgadas. Com isso, criou-se uma situao em que criadores e criaturas rodam em crculo. "Ao planejarem uma campanha ou a lista de convidados de algum lanamento, os anunciantes do preferncia a quem bomba no Twitter ou no Instagram", diz Amanda Gomes, empresria de So Paulo que faz a ponte entre artistas e grandes marcas. Num exemplo recente dessa dinmica, a Ford contratou a cantora Claudia Leitte para fazer show e a atriz Isis Valverde para embelezar o lanamento de um modelo de carro. Resultado: mais de 300 notas e reportagens (nmero inflado, diga-se, pelo momento em que Isis  ops  mostrou mais do que devia). "Numa conta conservadora, calculamos que pelo menos 15 milhes de pessoas foram alcanadas com essa estratgia", festeja o vice-presidente da empresa, Rogelio Goldfarb. Claudia Leitte, Isis Valverde e famosos em geral agradecem, penhorados.

SABRINA SATO,
APRESENTADORA
Twtter: 5,8 milhes de seguidores
Tuitada: "Pernas prontas para o carnaval! Ehehe"
Valor mdio: 15.000 reais

FERNANDA PAES LEME,
Twitter: 2,55 milhes de seguidores
Tuitada: "Olha esse mimo que acabei de receber! AMEI!!"
Valor mdio: 8000 reais


12. ORIENTE MDIO  A VOCAO DO LBANO  A PLURALIDADE
 o que diz o ex-presidente Amin Gemayel. Para seguir esse caminho, segundo ele, urge declarar o pas neutro e, assim, isolar o Hezbollah
MRIO SABINO, DE PARIS

     O Lbano esteve  beira da desintegrao total entre 1975 e 1990, por causa da guerra civil entre muulmanos, cristos maronitas e drusos, na qual tomaram pane a Sria, Israel e a Organizao para a Libertao da Palestina  ento dirigida por Yasser Arafat e cuja autoridade se veria cindida entre o Fatah, que hoje tem sob sua jurisdio a Cisjordnia e mantm canais de dilogo com o governo israelense, e o Hamas. a faco extremista que domina a Faixa de Gaza e no reconhece a legitimidade de Israel. Desde o fim do conflito, os libaneses mantm um equilbrio institucional precrio e relaes externas sujeitas a solavancos, devido, principalmente, a um componente interno de grande periculosidade: o Hezbollah. Esse grupo paramilitar islmico surgiu durante a guerra civil, conta com financiamento pesado do Ira e transformou o sul do pas em base de apoio ao Hamas. Em 2006, o sequestro de dois soldados israelenses pelo Hezbollah levou o Lbano a ser atacado outra vez pelo pas vizinho. Um ano antes, o ex-primeiro-ministro Rafik Hariri foi assassinado a mando do governo srio. No importa o tirano, a Sria sempre considerou o Lbano o seu quintal  ate' comear a periclitar, o regime de Bashar Assad copatrocinava o Hezbollah. 
     Em tal panorama. Amin Gemayel. de 71 anos, exerce um papel central. Lder do partido maronita Kataeb, ele pertence a um cl poltico tradicional, foi presidente da Repblica, permaneceu exilado por vrios anos na Sua, na Frana e nos Estados Unidos e, agora, empenha-se para que o Lbano siga sem percalos o caminho do confessionalismo  ern que muulmanos, maronitas e drusos estejam devidamente contemplados na reparao do poder democrtico. Para tanto, Amin Gemayel acredita ser essencial que o Lbano passe  condio de nao neutra e. portanto, indevassvel s intervenes externas que o desestabilizam. Essa neutralidade, no s acordada entre os libaneses, mas reconhecida pela comunidade internacional, seria tambm a melhor forma de cortar os dutos que alimentam o Hezbollah, hoje imiscudo na vida nacional em planos que vo do poltico ao assistencal. Amin Gemayel chegou  Presidncia da Repblica em setembro de 1982, no lugar de seu irmo, Bashir, assassinado antes de tomar posse a mando dos srios, cuja presena no Lbano ele combalia radicalmente. Dias depois, os campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila foram cenrio de um massacre atribudo a milicianos cristos, com a chancela das forcas israelenses que ocupavam parte do territrio libans. Teria sido a vingana terrvel contra o assassinato de Bashir. Vinte e quatro anos mais tarde, seria a vez de Pierre Gemayel, filho de Amin, ser morto num atentado cujas impresses digitais apontam para a Sria, para variar. De passagem por Paris, onde se encontrou com Franois Hollande e conversou com jornalistas no Centre de Accueil de Ia Presse trangre, o ex-presidente libans concedeu uma entrevista a VEJA, da qual a revista publica os trechos a seguir. 

A AMEAA DO HEZBOLLAH
"O Hezbollah afirma defender a integridade nacional do Lbano, mas a sua fidelidade  ao Ir fundamentalista. Seus integrantes impedem a consolidao da democracia e, por meio do seu brao paramilitar, minam o estado libans ao retirar-lhe o monoplio da fora. Eles vendem a ideia de que Israel representa um perigo. No entanto, os israelenses s nos atacariam outra vez, como fizeram em 2006, por causa do Hezbollah. A retrica dessa faco esconde o fato de que existe uma zona neutra entre os dois pases, criada de comum acordo sob a mediao da Organizao das Naes Unidas. O Hezbollah fala em 'resistncia a Israel', mas no h contra o que resistir." 

NEUTRALIDADE DO LBANO
"As soberanias nacionais, no Oriente Mdio, vm sendo solapadas em nome de uma causa  a muulmana fundamentalista  que pretende erradicar fronteiras e diferenas culturais. Dentro desse contexto, o Lbano  pequeno e frgil demais. No temos condio de enfrentar os perigos internos e externos, agora misturados como nunca, sem que seja criado um forte consenso entre as suas foras polticas legtimas, no sentido de dar ao pas o que chamo de 'neutralidade positiva'. Ela significa estabelecer o princpio de que o Lbano estar sempre do lado da democracia pluralista, sem que isso implique a ingerncia direta nos assuntos internos de outras naes. A contrapartida  o reconhecimento internacional de que o Lbano no poder mais sofrer a interveno de elementos que lhe so estranhos. Essa neutralidade deveria ser formalizada em nossa Constituio e referendada pelas Naes Unidas e pelo seu Conselho de Segurana."

O CONFLITO NA SRIA
"Sou contra a participao de libaneses na questo sria pelo simples motivo de que o nosso pas nada tem a ganhar com isso. Evidentemente, espero que seja dado um basta ao banho de sangue que ocorre na Sria, com a instaurao de um regime democrtico no s capaz de assegurar a paz aos seus cidados, como de ajudar a estabilizar uma regio que permanece conflagrada por causa tambm da atuao irresponsvel do atual governo srio. Ao lado do Ir, Damasco financiava o Hezbollah, entre outras prticas condenveis. No  possvel ignorar, no entanto, que a guerra civil na  Sria afeta o Lbano de forma preocupante, porque estamos recebendo diariamente um nmero de refugiados civis incompatvel com a nossa capacidade. A estatstica oficial  de 200.000 pessoas, mas j h por volta de 400.000 srios instalados no nosso lado da fronteira  cerca de 10% da nossa prpria populao!  uma emergncia humanitria que precisa ter uma ateno maior da comunidade internacional."

POLTICA INTERNA LIBANESA
"A Repblica libanesa deve ser um espao de dilogo entre muulmanos, cristos e drusos. A paridade no poder, num pas cuja diversidade de origens  uma das suas maiores riquezas, precisa ultrapassar o terreno da mera formalidade e tornar-se realidade concreta. Outro desafio dos polticos  laicizar ao mximo o nosso cotidiano, porque se trata de uma garantia de liberdade aos cidados de todos os credos. O casamento civil, por exemplo, no existe no Lbano porque muulmanos radicais bloqueiam os projetos que o instituem. A minha candidatura  Presidncia, em 2014, depende obviamente das circunstncias. Meu foco, neste momento,  ajudar a fortalecer a Repblica e a vocao do Lbano para a pluralidade."

O EVENTUAL BOMBARDEIO DO IR POR ISRAEL
" uma deciso que no est em nossas mos,  claro, e em relao  qual no podemos, e no queremos, ter nenhuma influncia. No  absurdo dizer, contudo, que seria salutar para o Lbano se Israel impedisse o Ir de desenvolver armas nucleares e, assim, enfraquecesse o regime iraniano. A intromisso estrangeira, bem como seus tentculos locais, continua a ser um grave problema no nosso pas."

PRIMAVERA RABE
" inegvel que o clamor das ruas por mudanas, em pases como a Lbia, o Egito, a Tunsia, o Imen e  v l  a Sria,  forte e justo. Mas as multides que viveram ou vivem h dezenas de anos sob ditaduras no tm um projeto alternativo consistente. A juventude, caldo dos protestos, no foi educada para o exerccio da democracia. A meu ver, o problema  essencialmente cultural. Falta aos jovens a cultura da liberdade, do dilogo, da paz. Eles no conhecem os princpios democrticos nem seu modus operandi. O ideal  que passassem por um processo pedaggico, coordenado com a ajuda de organismos internacionais. Desse modo, no se deixariam seduzir por outros tipos de tirania que se vendem como regimes democrticos populares. O resultado do que ocorre hoje em boa parte do mundo rabe  imprevisvel."

PALESTINA
"O territrio da Cisjordnia precisa ser conservado em sua integralidade, no apenas para abrigar os palestinos que l esto, como para receber aqueles da dispora, que desejam voltar s suas terras confiscadas. Cabe  comunidade internacional, em especial os Estados Unidos, encaminhar um acordo de paz entre palestinos e israelenses que seja bom para ambos. No se deve creditar ao presidente Barack Obama a responsabilidade integral pelas posies americanas no Oriente Mdio. H um sistema de poder e um aparato de reflexo e anlise que definem as linhas gerais da poltica externa dos Estados Unidos h dcadas.  dentro de tais parmetros que os presidentes americanos se movimentam, ora mais para um lado, ora mais para outro, sem ultrapassar limites previamente traados.

OS MASSACRES DE SABRA E CHATILA, EM 1982
"Sabra e Chatila foram consequncia de uma operao israelense efetuada depois que Yasser Arafat, na ocasio lder da Organizao para a Libertao da Palestina, fugiu de Beirute, juntamente com combatentes seus, para escapar do Exrcito de Israel. Os israelenses queriam pr as mos em documentos da OLP que teriam sido deixados nesses campos de refugiados. Quem estava no comando dessa operao era o general Ariel Sharon, ento ministro da Defesa de Israel, demitido aps os massacres em Sabra e Chatila. Havia, sim, cristos libaneses envolvidos na busca dos documentos, mas eles no tinham nem os meios nem a inteno de promover a matana. Quando me candidatei  Presidncia do Lbano, para um mandato posterior, tive o voto de muitos muulmanos simpticos  causa palestina e contei com o apoio de Arafat  o que para mim  mais uma prova de que no podemos ser responsabilizados pelo que ocorreu." 


13. MEMRIA  O CRTICO 5 ESTRELAS
     Outros crticos americanos de cinema  como a confrontadora Pauline Kael e o intelectualizado Andrew Sarris  podem at ser considerados culturalmente mais influentes. Mais popular do que Roger Ebert, porm, no houve. Morto na quinta-feira, aos 70 anos, de um cncer de tireide que enfrentava desde 2002 (e que o desfigurou), Ebert se firmou com um estilo despojado, incisivo e raramente agressivo. A carreira iniciada em 1967  quando foi contratado pelo Chicago Sun-Times, no qual trabalhou por quatro dcadas, para escrever sobre filmes jovens como Bonnie e Clyde  Uma Rajada de Balas e a nouvelle vague francesa  disparou de vez graas  televiso: formando dupla com o colega Gene Siskel no programa Sneak Previews, a partir de 1975, Ebert fez fama por classificar os filmes sinalizando com o polegar para cima ou para baixo, como um imperador na arena romana. Foi tambm o primeiro crtico de cinema a ganhar um Prmio Pulitzer e a ter a sua prpria estrela na calada da fama de Hollywood. 
     Segundo Ebert, o segredo para fisgar os leitores era escrever como um reprter, e no como um estudante de cinema. "O intelecto pode nos confundir, mas as emoes no mentem jamais'", defendia. Uma nica vez entrou em conflito aberto com um cineasta: em 2003, numa resenha de virulncia atpica, demoliu The Brown Bunny, do ator e diretor Vincent Glio. Mais tarde, quando o filme entrou em circuito com 26 minutos a menos, ele teve a grandeza de reconsiderar sua opinio e elogiar Glio. Ebert escreveu dezessete livros  um deles sobre os filmes que detestou  e at alguns roteiros para produes erticas de baixo oramento, dos quais se orgulhava muito. Nos ltimos anos, devido  doena, perdeu a capacidade de falar e de se alimentar normalmente, mas no parou de resenhar o que via. Pouco antes de morrer, declarou sua ideia de paraso: assistir a Cidado Kane, seu filme favorito, devorando um pote de sorvete. 
MRIO MENDES


